Todo semestre, dependendo de como cada interdisciplina estabele suas relações de trabalho conosco, por vezes, tenho a necessidade de contextualizar meu grupo de trabalho. Necessito falar da forma como meus alunos reagem ao mundo que os cerca. Opto por construir esta página de forma que , quem a leia, compreenda como os alunos de minha escola reagem. Justifico sua criação pelo fato de, algumas vezes, perceber que nem todos os colegas, professores e tutores tem noção de que uma turma de alunos com Transtornos Globais não se compara a uma turma de alunos de escola regular, por exemplo. (embora saibamos que muitos alunos em classes regulares necessitariam de um atendimento mais especializado e, em alguns casos extremos , até a indicação de uma escola especial).
Neste momento não entrarei no mérito da Inclusão, da forma como é proposta. Mais tarde, talvez...
O comportamento de alguns de nossos alunos demonstra instabilidade e imprevisibilidade. Em um momento parecem estar calmos, respondendo e participando de propostas e, minutos depois apresentam outro comportamento que varia da apatia, angústia, agitação e, por vezes, agressão. Em alguns casos conseguimos identificar o que provocou a mudança de comportamento (um som intermitente, algum objeto fora do lugar, uma música, uma pessoa estranha ao ambiente, um cheiro, muito barulho...) em outros, não. Muitos alunos não se comunicam oralmente. Alguns falavam e, com o passar dos anos, deixaram de fazê-lo. Outros, chegaram em nossa escola sem falar nada e continuam assim. Há um caso de um aluno que passou anos sem falar até que, no pátio, falou o nome de sua professora.
Outros alunos apresentam pensamento desorganizado e discurso incoerente. Se você, por exemplo, tentar propor uma atividade como "vamos andar no gira-gira?" ele pode retrucar qualquer coisa como "o relógio tomou banho" menos, o que você esperaria como resposta.
Se lembrarmos da Professora Luciane e da interdisciplina de Psicologia, os termos id, ego e superego e estruturas do psiquismo retornarão à nossa memória, com certeza.
Como sabemos, o Id é movido pelo Instinto do Prazer enquanto o Ego "trabalha" com o Princípio da Realidade. O ego busca satisfazer nossas necessidades de acordo com meios que sejam aceitáveis pela sociedade. Já o Superego atua como censura e "bloqueia" alguns desejos e manifestações do Id que nos colocariam em situações desconfortáveis. ( Se está um calor insuportável e pensamos, "que vontade de tirar toda essa roupa e andar pelada..." o Superego nos "ajuda" fazendo que este desejo permaneça apenas como tal e não se configure em realidade. Opções como tomar um sorvete, trocar de roupa, nadar são mais aceitáveis).
A psicose tem como uma das características o predomínio do Id sobre as outras estruturas.
A censura social inexiste. Uma de minhas alunas , de anos anteriores, por vezes, no pátio, tirava sua roupa. Era necessário minha interferência (e insistência) para que colocasse de volta. O fato de existirem outras pessoas no local, de não ser socialmente aceito que pessoas circulem nuas em uma escola ou em qualquer outro tipo de lugar público, não fazia diferença: minha aluna tinha e tem as estruturas psíquicas alteradas, assim , o que é inaceitável para a maioria não o é, para ela.
Grande parte de nossos alunos tem dificuldade de relacionar-se socialmente, de acordo com padrões pré-definidos.
"Com relação ao pensamento, no psicótico acontece o que podemos chamar de clivagem, isto é, o pensamento delirante primário não se reprime nem fica embutido, o que o possibilita agir com uma normalidade aparente. Como seu pensamento é prisioneiro, ele não possui o prazer de pensar nem liberdade e autonomia para elaborar novos pensamentos . Por isso o psicótico tem dificuldade em criar metáforas (conotações secundárias, no sentido figurado); aquilo que ele escuta é interpretado de forma literal. Se um paciente psicótico ouve falar que a cabeça de alguém está "cheia de lixo", vai entender que o crânio dessa pessoa se encontra repleto de objetos sujos. Pode ser que ele até fique angustiado por não poder retirar esse "lixo" de lá. O psicótico não tem capacidade de abstrair."
(ALBUQUERQUE, 1995)
São outras características de alguns de nossos alunos as estereotipias, ilusões, alucinações, comportamento desorganizado, fala limitada ou inexpressiva, dificuldade para iniciar uma atividade produtiva. Atividades como vestir-se, tomar banho, escovar os dentes são difíceis para uma parte de nossos alunos. Quando falamos em AVDs estamos dizendo Atividades de Vida Diária. Mostrar como escovamos os dentes, auxíliá-los na tarefa, como utilizar a colher, depois de algum tempo, trocá-la por garfo e faca, como abotoar uma blusa, baixar as calças e sentar-se no vaso sanitário, lavar as mãos, abrir a mochila, retirar determinado objeto e entregá-lo, colocar um boné... tudo o que parece tão simples e óbvio para muita gente...não é para muitos de meus alunos.
Até agora, procurei possibilitar uma visão geral da clientela de minha escola. Lembro de algumas situações específicas que procurarei relatar com o objetivo de ilustrar ainda mais...
Durante um ano fui professora de um aluno que era considerado muito violento, na escola. Seus surtos eram frequentes e, nestes momentos, antes de ser contido, procurava machucar qualquer adulto a sua frente. Uma das coisas que desencadeava a sua desorganização era ter objetos fora do lugar que ele considerava como correto. Então, uma caixa de lápis de cera que ficava sobre a mesa, depois de alguns colegas terem usado era motivo para sua irritação. Uma folha de desenho virada de modo não convencional despertava seu desagrado. Classes fora do lugar geralmente usado, nem pensar... Dá para imaginar que muitas atividades eram planejadas para o momento em que ele estivesse fora da sala , que estivesse no pátio ou em PPI.
Em outro ano, quando não era sua professora, optei por atendê-lo em PPI e conseguimos alguns progressos. Infelizmente, este aluno ficou internado em uma clínica por muito tempo, depois de um "surto complicado".
Bem, os objetivos de uma turma de minha escola são muito diferentes dos objetivos de uma turma de primeiro ano, por exemplo. Enquanto a professora do primeiro ano está pensando e viabilizando formas de trabalhar com campo aditivo , posso estar com objetivos como conseguir sentar-se, em algum momento; bater palmas acompanhando uma canção, abrir a mochila e pegar seu caderno, entrar na sala sem morder seus braços....
É preciso dizer que temos alguns adolescentes que se alfabetizaram, que realizam produções textuais, que participam com relativa facilidade de oficinas de Culinária, em atividades de Informática. Mas o que para nós é um enorme progresso, para outras pessoas não é. Sentar no Ambiente Informatizado, ligar o computador, colocar os dedos no teclado e, ao mesmo tempo fixar o olhar na tela sabendo que o que aparecerá ali é resposta a um comando dado pelo movimento de seus dedos é uma atividade extremamente complexa. Não parece, não é? Na realidade, nem pensamos sobre isso...apenas fazemos. Só quando percebemos que há pessoas que não conseguem, começamos a refletir...
Minha turma é considerada uma das mais regressivas da escola. Alguns alunos manipulam suas secreções salivares, gospem, mastigam diferentes objetos e também manipulam partes do corpo. A oralidade é representada apenas por dois alunos e, mesmo assim, por vezes em um discurso incoerente. Neste ano, recebemos um novo aluno que lê e escreve. Ainda penso, em algum momento, propor -lhe alguma atividade para verificar sua vivência em Matemática. O que pudemos observar há pouco tempo é que agrupa objetos obedecendo a um critério. Certamente, em termos cognitivos, apresentará muito... Entretanto, no dia-a-dia lidamos com outras questões mais emergenciais com este adolescente. Conseguimos que permanecesse na sala após muita negociação e a relação que estabelece com o grupo é difícil.
Em todas as turmas da escola o emocional é o prejudicado. Com ele, em certos casos, há a associação à deficiências diversas.
Por mais incrível que pareça a algumas pessoas, em nossa escola, temos poucos alunos portadores de Síndrome de Down. Quando surge algum, tem associado outras dificuldades.
Fim da parte do dia 18 de maio
Comments (4)
Iris Elisabeth Tempel Costa said
at 10:36 pm on May 18, 2008
Oi, Bia! Ótima idéia teres criado o vide-bula. Com certeza, facilitará o entendimento da realidade, com a qual trabalhas.
Abra@os
Anonymous said
at 8:54 am on May 19, 2008
Oi, Bia querida! Está muito boa a descrição da tua turma! consegues retratar a realidade e o dia-a-dia de pessoas, teus alunos, com uma estrutura psíquica diferente da nossa, que fala de uma realidade própria. Trouxeste exemplos práticos, aliados a questões teóricas, que viabilizam o entendimento de quem lê teu texto. Por mais incoerente que pareça aos olhos de muitos, essa é a realidade deles, um mundo sem representações. Já trabalhei com psicóticos crônicos adultos em um atelier terapêutico, e o trabalho junto a eles era de questões básicas para nós (cuidados básicos, de higiene), mas essenciais a eles, a fim de tornar sua vida em sociedade minimamente possível. E cada passinho, cada progresso, ou atividade realizada, era um ganho maravilhoso e emocionante. Importante ressaltar... eles têm grandes limitações sociais, até mesmo cognitivas com o passar do tempo, mas uma afetividade especial, assim como eles! Como já te disse, é fundamental pensarmos em como se pode trabalhar nossas temáticas com esses alunos, pois essa é nossa realidade também! Bjos e vamos conversando e trocando idéias.
Anonymous said
at 10:18 am on May 19, 2008
OI Bia querida, ouvir teus alunos é muito importante para que se entenda melhor o cotidiano escolar que vives, em relação aos demais alunos do curso. Isso serve, inclusive, para, nós professores, podermos compreender até onde podes alcançar com as tarefas que propomos e o que podes nos oferecer em troca. Um abração
Bea
Anonymous said
at 1:05 am on Jun 4, 2008
Bia, mais uma vez agradeço teu relato. Como diz a Bea, quanto mais soubermos da tua realidade mais poderemos focar nossas propostas nela e aprendermos em conjunto. Lendo essa descrição da videbula, percebo, mais ainda, as tuas conquistas relatadas na resignificando ciências e matemática. Continuo dedicada à leitura do teu material, cada vez com mais atenção e paixão. [ ]
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