Finalizando o infindável
Talvez deva começar com a descrição de uma nova casa. À esquerda, um convite para entrar, para conhecer e, quem sabe, desvelar. Logo abaixo, lembranças musicais, admiração pela crítica construída a partir do criativo, do belo e instigante exercício da contestação fundamentada. Acima, à direita, atualmente, a mais preciosa aquisição: voz, arranjo e visual cuidadoso: Paciência...
Descendo se observa o contraste vindo da inquietude, do enfrentamento e disposição para a violência. “O mundo vai girando cada vez mais veloz, a gente espera do mundo e o mundo espera de nós...”.
Lenine afirma que, enquanto o tempo acelera e pede pressa, ele se recusa... e vai “na valsa”.
Naruto, tenso, engessado em um pseudo-uniforme ninja, distribui seus golpes, se defende e/ou ataca.
Esta casa é virtual e se chama wiki. Paradoxalmente, traz a possibilidade real de transformar meu presente e minhas ações no futuro. Crio esta nova página com objetivo de falar sobre meu aluno Tiago e refletir sobre os movimentos realizados durante seu período de adaptação na escola. Na verdade, procuro finalizar uma tarefa com a certeza da continuidade de um trabalho de resgate e descobertas.
Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...
Iniciei minha pesquisa sobre Naruto tentando descobrir um pouco mais da história de Tiago. Tiago que acredita ser Naruto, que acredita ser um ninja vingador e que sente uma força estranha e incômoda dentro de si.
Confesso que, desde o início, antipatizei com o personagem da série. Sua figura estava associada, em minha opinião, à violência, vinganças, incompreensão... Entretanto, foi através da história de Naruto que começamos o resgate de Tiago para o convívio com novas pessoas, novas possibilidades e verdades. Falamos com Tiago, inicialmente, através de Naruto; identificando o que era semelhante a ele: as dúvidas e os receios em relação a uma história familiar nebulosa.
Hoje, percebemos que a forma que Tiago encontrou para falar de si foi entrelaçar-se com o personagem. Fingimos “que isso tudo é normal” e buscamos paciência para acompanhar um processo não tão natural.
Através de um jogo de perguntas, de entrevistas realizadas por Tiago, com as pessoas da escola e sua família, pudemos conversar sobre o que é Ficção Científica, Ficção e Realidade. Algo muito desafiador para alguém com o diagnóstico de psicose. O que é real? O que é imaginário?
Entretanto, aprendo todo o dia que, muitas vezes, caminhamos sem cessar e não chegamos a um destino conhecido ou desejado. A caminhada se torna o objeto mais importante, o processo mais elaborado.
Tiago se relacionou conosco, inicialmente, através da recusa em ser nosso aluno, em permanecer na sala de aula ou junto a seus colegas. Sua fala era rápida, por vezes incoerente, utilizava o corpo para empurrar professores e colegas e a intensidade da voz para intimidar quem se aproximasse.
Embora notássemos o gosto de Tiago por jogos e brincadeiras violentas, como Naruto, começamos a perceber que o mais relevante, no personagem da ficção era o desejo de ser amado, de resgatar uma história incompreendida e, a partir daí, reescrevê-la. O personagem de nossa realidade também tem este desejo e procura, com as falas de Naruto contar sua angústia, raiva e incompreensão. Tiago lê, escreve, classifica, sequencia, soma, multiplica... mas não consegue se relacionar no grupo sem o apoio de suas professoras: foge da sala quando se sente questionado ou repreendido, desconfia que todos o perseguem e querem o seu mal.
Mas foi, há poucos dias, numa tarde chuvosa que, sentada ao seu lado, recebi um gratificante retorno:
Tiago começara a explicar-me as regras de um confuso jogo de cartas do Naruto que eu comprara de um camelô. Estava eufórico com a surpresa trazida e gozava de minha dificuldade em gravar nomes de novos personagens e truques e golpes apresentados nas cartas. O aparecimento da raposa de nove caudas sempre gerava em Tiago agitação e preocupação por minha parte: ao mesmo tempo que acreditava ser uma oportunidade de falar sobre alguns desejos relacionados à vingança, que Tiago trazia, corria o risco de facilitar-lhe a entrada no imaginário, a colar-se ainda mais em uma história com semelhanças e, também, muitas diferenças. Este dia, a raposa foi observada e ignorada. A conversa foi, mais ou menos, assim:
Os marcianos trocam a cabeça das pessoas e colocam as cabeças de outras pessoas...
É? Por que tu achas isso?
Por que...eles dão mordidas...
Quem dá mordida?
O marciano! E coloca o veneno com as próprias mãos!
Tu viste isso, onde?
No filme...
No filme...então isto é...
Eu sei! É ficção.
Ah, legal...
Só que a única maneira de destruir os marcianos e matá-los é água! O marciano sucumbiu com a água. Os vampiros vendem sua alma... chupam sangue...
Nossa! Tu já viste algum vampiro antes?
Já sim, na televisão. Eu gosto de ver o Jason...
O Jason do filme? Aquele de terror?
Sim...ele se vingou das crianças que gozaram dele...
Aqui, vale uma nova pausa para novo resgate: Jason, personagem do filme de terror, também foi incompreendido e busca, através da violência, vingança. Assim como Naruto, em alguns momentos, se sente. Assim como Tiago pensa que deve agir, buscando a semelhança e continuidade de ações com os personagens.
Perguntei:
Olha só, Tiago... tu não achas que o Jason seria bem mais feliz se percebesse que, em vez de se vingar, poderia achar pessoas que gostassem dele?
Nesse momento, ficou em silêncio. Depois de alguns segundos levantou-se da cadeira e debruçou-se sobre a classe, ficando de costas para mim. Começou a falar com a cabeça escondida entre um dos braços:
Tu e a Sílvia (minha colega, também professora de Tiago) me ganharam...
Como assim?
Você sabe que eu não queria ficar aqui, ser aluno de vocês...
Ah...
Mas eu sei que vocês gostam muito de mim.
Sabe? Como? (Provoquei, porque sabia a resposta.)
Por que vocês me falam isso. E eu sei que isso não é ficção.
Isso é verdade, Tiago. A gente gosta muito de ti e quer te ajudar. Mesmo quando te dizemos Não, continuamos gostando de ti.
Sei...compreendo...isso é verdade... E, agora, que conheço vocês, não posso deixá-las... Bia, posso ir pro recreio, agora, sem meus colegas?
Não, não pode.
Ah...qualééeé...
Esta fala foi uma grande demonstração de carinho e confiança. Mesmo que efêmera, como tantas outras ações de alunos com transtornos, é uma possibilidade. Tiago que, em alguns momentos, fala de Naruto com distância, conseguindo desvincular fantasia de realidade, que se recusava a sentar perto de um “aluno com Down” e hoje, auxilia o mesmo colega a deslocar-se até a assembléia, aprimora a ironia e implicância à medida que gestos e falas violentas se atenuam...
“Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma... a vida não pára...”
Percebo que Naruto exerce um fascínio em jovens, adultos e crianças. Surpresa, ouvi de um camelô na Assis Brasil que Naruto lhe ajudara a fazer um puxadinho nos fundos de sua casa. Ao perceber minha surpresa explicou-me que, com as vendas das Cartas de Naruto, faturou muito. O camelô nem tem idéia de quem seja o personagem...mas o adora.
Não me sinto seduzida pelo animê. Menos ainda, por algum mangá do personagem. Sentimentos como raiva, inveja, dissimulação e atos de violência se sobressaem ao meu olhar. Porém, reconheço o auxílio que o animê proporcionou e proporciona a Tiago: blinda-o, protege-o e, ao mesmo tempo, em um interessante paradoxo, o expõe.
Tiago tem se permitido brincar: brinca de esconde-esconde, na entrada, fazendo com que uma de nós o procure pela escola e o traga, de braços dados, com o capuz de seu casaco, escondendo todo o rosto, para a sala. Ao ser saudado com palmas e brincadeiras ri e disfarça rapidamente o contentamento. Há dias, falou de seu padrasto sem manifestar raiva. Sabemos que o conquistado em um dia, pode se perder no outro... Mas insistimos pois é nosso trabalho, nossa crença e nossa paixão.
Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...
A questão trazida através das professoras do Seminário Integrador e dos textos disponibilizados me acompanha: como proporcionar que a capacidade criadora e crítica seja cada vez mais estimulada? Dando respostas imediatas e prontas é que não é...
Desacomodar nosso aluno começa pelo processo de nossa própria desestabilização: do reconhecimento que pouco sabemos e que temos muito a aprender, inclusive COM os nossos alunos. Aceitar que não sabemos tudo e, principalmente, que nossa matéria-prima nos desafia e nos convida a refletir, por vezes, é difícil.
“Será que é tempo que falta pra perceber?”
Percebo que muitos de nós temos a tendência a formatar, a classificar nossos alunos dentro de uma mesma perspectiva, procurando facilitar planejamentos, planilhas , sem pensarmos nas diferenças. É mais fácil aplicar uma mesma prova do que pensar e avaliar os diferentes tipos de aprendizagens e conquistas de cada um, no grupo, não é? Será?
“De concreto, o que podemos fazer para erradicar essa postura da nossa sala de aula?”
Talvez a resposta esteja em Tiago e em seus colegas. Talvez eu consiga perceber que além de perguntar, com a turma que tenho, em alguns momentos, preciso silenciar... e escutar o que não é dito, mas é mostrado. Talvez eu aprenda ainda mais se não comparar desempenhos, se enxergar possibilidades...
Buscar respostas para perguntas feitas, para perguntas não pronunciadas e, principalmente, perceber que a busca é mais valiosa que a resposta entregue facilmente.
As atividades realizadas com Tiago e seus colegas ainda serão relatadas. Entretanto, pelo cumprimento de prazo e metas, adiciono esta página ao PIE. Interessante é a maneira com que lido, atualmente, com um recurso que trouxe muita angústia. Mexer, editar , escrever no wiki, no primeiro semestre eram atividades desagradáveis. Hoje, percebo que o desagrado estava diretamente ligado ao desconhecido: na medida em que me apropriava de todas as ferramentas, o que era complicado se tornou positivo.
“A vida não pára... a vida é tão rara”
“Vamos na valsa”, como Lenine ou “girando cada vez mais veloz”, como Naruto. Mas, vamos...
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